o que quer dizer essa crise?
por rodrigo sanfelice
a meu ver,
ela é o reflexo de um novo regime de acumulação, baseado na
financeirização, em justaposição ao modelo de acumulação
fordista.
esse novo tipo de capital pressupõe uma nova forma do capital, cada vez mais
fictício.
explique-se: trata-se de um capital que circula sem a mediação da produção, sem as relações de troca e venda de mercadorias.
daí uma certa autonomia relativa do capital, dada a dinâmica dos juros: a avaliação das empresa, suas ações, hoje é dada pelo valor dos seus ativos mais a taxa média de lucro, que é o capital portador de juro.
portanto, o valor acionário de uma empresa supera o seu valor “REAL”.
o desenvolvimento desse modelo capitalista se deu entre as décadas de 70 e 80 do século passado, e foi um novo
bretton woods. nesse último final de semana, líderes do
g20 reunidos em
s.paulo buscaram as tratativas de novos marcos regulatórios para a economia internacional. o que me parece um tanto paradoxal, pois a força motriz desse sistema é exatamente a mundialização financeira global.
retomando: na década de 80, entram em cena novos atores, beneficiários deste novo sistema, que são os fundos institucionais, nomeadamente os
fundos de pensão, os fundos de investimento, a indústria de seguros e os fundos hedge, que são a salvaguarda dos capitalistas ante a turbulência global, posto que as moedas nacionais flutuam muito.
tudo isso baseado em complexos sistemas de tecnologia da informação que aliam bancos e indústrias nessa nova forma de capitalismo financeiro e que vem a ser, sem dúvidas, uma forma do capital imperialista.
em sua gênese, sobrepondo o capital financeiro especulativo ao produtivo, altera o dia-a-dia das empresas e também a relação de classes, como veremos adiante.
a essa nova etapa do desenvolvimento capitalista correspondem a institucionalidade de cada empresa a fim de garantir sua produção industrial, a valorização do capital financeiro e sua acumulação parasitária, fetichista como diria marx, baseado na pressão do capital financeiro sobre a produção.
eis o que diferencia a linha de produção fordista, onde o capital é reinvestido em novas unidades fabris, do sistema dos acionistas, onde toda essa lógica é alterada pela informatização, pelo controle do trabalho, e pela “externalização”, que é a chamada reestruturação das companhias, que se desfazem das atividades de baixo valor agregado, terceirizando serviços. daí surgem os contratos temporários de trabalho, o salário associado a metas e todas outras formas despóticas de apropriação da força de TRABALHO.
são notórios os efeitos dissolventes sobre o coletivo da classe trabalhadora, os sindicatos. as empresas desta nova economia são, por natureza, anti-classistas.
é esse o ponto aonde quero chegar: os focos de resistência dos trabalhadores ganham extrema importância diante da crise capitalista atual, posto que colocam em xeque esse regime de acumulação.
as tendências cíclicas das crises, em especial esta pela qual vivemos hoje, dada sua importância e ineditismo, abrem possibilidades igualmente inéditas de retomada das lutas de classes.
trotsky anteviu que os trabalhadores, num primeiro momento de agudização destas crises cíclicas, assistem primeiramente de forma passiva os efeitos da crise, depois passam à ação. tem-se a oportunidade de retomada das lutas sociais, associada ao baixo crescimento da economia.
retomemos marx e os princípios da capitalização.
sabemos que o valor das ações de uma empresa é o valor presente mais o seu lucro esperado, considerando-se uma taxa de juros média entre 6 a 7 % a.a.
essa financeirização do sistema se torna mais evidente quando consideramos que o estoque da riqueza financeira, que vem a ser as ações, títulos de dívidas etc. aumentou em quinze vezes no intervalo entre os anos de 1980 a 2006, ao passo que o pib mundial se quintuplicou no mesmo período.
o fluxo de renda real, a lógica da valorização financeira sobre o trabalho fica mais evidente quando analisamos os grandes grupos econômicos, as holdings, e seu território global de destruição e a gestão centralizada do capital-dinheiro.
cada empresa deve ser uma “central de lucro” e gerir suas operações de caixa: capital de giro, financiamento da produção e estoque de divisas. cada empresa busca, no mercado financeiro, de cinco a dez vezes mais do que suas necessidades reais de produção.
e eis que a crise chega ao big money, gigantes do mercado brasileiro, players do mercado internacional, como a sadia, a votorantim, a aracruz papel e celulose. por quê?
como esses mercados futuros antecipavam suas vendas, investem na taxa de juros, e com a desvalorização do dólar ante ao real, quebram os valores desses ativos fictícios, arrastando consigo fundos, seguradoras e até mesmo os bancos, embora no brasil a situação dos bancos seja um pouco diferente.
em suma,
estamos diante de uma crise que é a somatória de todas as crises recentes do capitalismo, inclusive a crise das bolsas de 1987, a crise das moedas dos anos 90, a crise das empresa pontocom de 2000 e 2001, e a crise maior das bolhas de especulação imobiliária no centro nevrálgico do sistema capitalista de 2007. esse cenário abre espaço para a retomada das posições vanguardistas da esquerda, ou senão teremos a reação em sentido contrário, ou seja, um álibi para a direita manter a aprofundação de cortes em gastos sociais, menos investimentos do poder público, altas taxas de juros, superávits primários, etc.
a magnitude dessa crise se revela nos setecentos BILHÕES de dólares que o tesouro norte-americano injetou em instituições à beira da falência, devidamente aprovados pelo congresso. na união européia, esse montante chegou a 1,9 TRILHÃO de dólares, e na China, 580 BILHÕES. não é todo dia que se vê isso: essa crise se revela decorrente do ciclo de crescimento experimentado por diversas economias entre 2002 e 2007, que foi uma resposta à crise das empresas pontocom em 2001. houve um crescimento das economias mundiais baseado no endividamento dos estados unidos da américa.
em 2002, lares norte-americanos consumiam a quase totalidade da produção das empresas norte-americanas instaladas na china. com o aumento de preços das commodities, como a soja, e a especulação dos mercados futuros e os derivativos, toda essa engenharia financeira ruiu. explodiu a bolha imobiliária e os títulos sub-prime do sistema hipotecário norte-americano, e com ele, todo o sistema bancário dos eeuu, do reino unido e da espanha, principalmente.
nos anos 80, reagan, tatcher e joão paulo II evidenciaram mais do que nunca essa dicotomia entre capital x trabalho. foram criadas todas as condições para o livre trânsito do capital em todas as partes do globo, em contraposição à supressão da garantia de direitos trabalhistas e previdenciários mundo afora, em resposta a crise mundial do petróleo dos anos 70.
nos anos 90, a ofensiva neoliberal ganha novo impulso com abundãncia de mão-de-obra barata na rússia, no leste europeu e na china, que gerou enorme pressão sobre a classe trabalhadora a nível mundial. nesse caso, os grandes ganhadores foram os eeuu: um por cento da população norte-americana mais rica detinha oito por cento do pib ianque em 1970, e essa porcentagem passou para dezessete em menos de vinte anos. suas empresas transnacionais lucraram fartamente como nunca com taxas de lucro no estrangeiro.
então chegamos ao paradoxo principal deste sistema: temos um capital fictício reproduzindo mais capital fictício, e não poderíamos viver essa ficção eternamente, pois isso gera os desequilíbrios que vêm à tona com a atual crise.
as leituras que a esquerda faz desta crise são as mais díspares. alguns são levados a crer que, com seu crescimento, a china assume o papel que cabia aos eua.
mas a renda per capita chinesa é a centésima do mundo, e seu pib corresponde a 6% do pib mundial, numa economia caracterizada por sua baixa produtividade.
o desafio seria reverter sua produção ao seu mercado interno, e essa foi a medida baixada pelo governo do pc chinês para tentar conter, em vão, a crise de superprodução.
seu grande consumidor, os eeuu, têm grandes perdas acumuladas no mercado mundial, e como a china é a maior detentora de títulos da dívida pública norte-americana, tem-se uma recessão generalizada.
e aonde ela vai chegar?
vejamos.
traçando um paralelo com a crise dos anos 30 do século passado, vê-se que esta foi um processo decorrente de uma depressão maior, de contradições profundas do capitalismo, e que só foi se resolver, para os eua, no final da segunda guerra, com a destruição maciça de capitais.
nada poderia explicar essas crises depois de grandes triunfos do capital, que conseguiu seu intento de subjugação de novos territórios, de depreciação da força de trabalho mundo afora: fica evidente a lógica destruidora do sistema capitalista.
e que gera, neste momento, uma inquestionável redução do papel dos estados unidos e seus organismos – onu, bid, fmi – no contexto geopolítico internacional, e traz à tona a discussão de novas potências regionais num mundo multipolar.
a união européia encontra-se igualmente desnorteada. sarkozy apostava na recuperação da frança diante da europa e do mundo, mas seu discurso gaulista enfezou angela merkel, que vê na atual crise a possibilidade de ascensão econômica germânica. do mesmo modo, no mercosul, a argentina teme a invasão de produtos brasileiros que acabem com sua indústria no caso de uma superdesvalorização do real, e essa é a lógica de funcionamento do capitalismo.
em épocas de grandes crises, a competição torna-se ainda mais exacerbada, e a quebra do lehman brothers e da mega-seguradora aig nos mostra que os lobos comem as ovelhas, e quando se acaba a última das ovelhas, os lobos passam a comer os próprios lobos.
podemos concluir, então, que a china é débil demais para substituir os eua. mas china e japão têm suas armas, que são reservas em bônus do tesouro norte-americano, que agora ninguém quer. essa grande crise de confiança dos mercados não vai, por si só, trazer novas revoluções.
por outro lado, vale a pena frisar que as massas não permanecerão inativas. lembremos que a crise dos mercados asiáticos trouxe consigo a indignação popular que culminou com a queda do sanguinário ditador suharto, na indonésia. a crise cambial argentina em 2001 mobilizou diversos setores da classe média, las madres de la plaza de mayo, trabalhadores e piqueteros e a sociedade civil organizada protagonizou diversas ocupações de fábricas e edifícios públicos, panelaços, apitaços, retomadas de indenizações de presos e desaparecidos políticos e o diabo. justo na argentina, que durante o governo menem (hoje detido em prisão domiciliar) aplicou o receituário neoliberal exatamente como lhe ordenava o fundo monetário internacional.
foi essa falência do modelo neoliberal que permitiu a chegada de lula ao poder no brasil em 2002, e depois de evo na bolívia, de correa no equador, e dos kirchner na mesma argentina.
e é nesse novo panorama em que se vislumbram possibilidades revolucionárias que eu me sinto particularmente entusiasmado. marx já alertava do estado apropriado pela burguesia para garantir sua sobrevida. e agora cai a grande farsa: não há dinheiro para o acesso universal a um sistema público de saúde (mesmo no centro do sistema capitalista, vide o filme ‘sicko’ de michael moore), nem para o financiamento de moradias, nem para o acesso à universidade pública, mas se tem o equivalente a 70% do pib do brasil para salvar o sistema bancário em bancarrota.
coisas estranhas acontecem, e vão acontecer cada vez mais, nesse sistema putrefato de produção. na argentina, por exemplo, grupos políticos neoliberais promoveram recentemente a estatização dos fundos de pensão, que tinham sido privatizados por facções nacionalistas do peronismo. essas contradições não haverão de passar incólumes pela história, e às novas gerações abrem-se perspectivas revolucionárias. aquela história do fim da história, propagada por fukuyama e outros pensadores regiamente remunerados pelo departamento de estado norte-americano, já era.
cabe-nos lutar por um novo sistema, já que o atual não vai cair sozinho. a emancipação da classe trabalhadora vai ser obra dos próprios trabalhadores, à medida que se tornam patentes as contradições intrínsecas à ordem capitalista e o desmonte do discurso hegemônico, essa ladainha neoliberal assimilada pela classe trabalhadora de que o estado é como uma família, que não pode gastar mais do que arrecada e por isso não pode sequer investir em políticas públicas, repetida infinitamente pelo capitalismo midiático desarticulador.
agora que os economistas burgueses buscam metáforas sísmicas para tentar explicar a crise e justificar a intervenção estatal sobre o livre mercado, chegamos a conclusão que existe tanto capital no mundo que ele se tornou incapaz de se reproduzir por si só, e as medidas governamentais só fazem atrasar ou adiantar a chegada ao abismo.
foi uma crise semelhante na alemanha dos anos 30 que conduziu hitler ao poder.
e é numa crise sem precedentes que obama assume a presidência dos eua, mas a reconfiguração do quadro geopolítico internacional tende a ser mera retórica e a administração democrata na casa branca dar continuidade às desgraças de bush II e suas políticas belicistas e protecionistas para evitar um desemprego ainda maior no centro nevrálgico do sistema.
por fim, quero dizer o seguinte:
as lutas de classes se tornaram mais latentes e evidentes do que nunca. as massas não vão se resignar, não vão deixar simplesmente que os capitalistas joguem sobre suas costas os custos de uma enorme e incomensurável crise, isso é FATO.
devemos então lutar pelo poder popular. ou os trabalhadores organizados tomam o poder, ou essa ordem decrépita de produção capitalista e seus artífices se recompõem, e dois séculos de luta teriam sido em vão.
só há uma saída, embora eu veja uma crise de direção revolucionária contra a hegemonia do capital financeiro global e suas burguesias locais.
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